Revista de Turismo do Nordeste

Cearense desbrava a Índia como voluntário em projeto educacional. Confira nossa entrevista!

SHARE
, / 0
Cearense desbrava a Índia como voluntário em projeto educacional. Confira nossa entrevista!

Já pensou em fazer uma pausa na carreira e partir para um programa de voluntariado num lugar distante e de costumes diferentes do seu?

O portal VemTambém entrevistou o jornalista Guilherme Paiva, fortalezense aventureiro que decidiu incluir a experiência de viver numa pequena aldeia da Índia por algumas semanas a fim de contribuir com o ensino da matemática e da língua inglesa aos filhos das famílias locais.

Todo o processo foi acompanhado pela CI Intercâmbio e viagem que conta com vários programas de intercâmbio em diversas áreas: para trabalhar diretamente com animais selvagens , em seu habitat natural; cuidar de crianças e jovens carentes; ensinar comunidades locais sobre línguas, informática, artes… viver junto à uma família local, aprendendo seus costumes, cultura e o dia-a-dia de países exóticos.

O cearense cercado por crianças de Elephant Village

O cearense cercado por crianças de Elephant Village

Quer saber mais sobre a experiência de um cearense no interior da Índia? Confira a entrevista!

– O que te levou a decidir fazer voluntariado e como foi o processo e a escolha do lugar específico?

Fazer um trabalho voluntário, especialmente em um local como a Índia, não estava nos meus planos mais concretos. Aconteceu de surpresa. Em uma conversa despretensiosa com um amigo. Fiquei interessado e passei a pesquisar bastante sobre o assunto. A primeira surpresa: embarcar para fazer trabalho voluntário era mais simples do que eu pensava. Fui até uma das empresas que encontrei aqui em Fortaleza que fazem esse “intercâmbio” com o desconhecido, a CI. De cara, senti uma forte conexão com o país asiático (Índia) e me decidi, mesmo sendo noticiado de que eu seria o primeiro cliente a ir para lá (geralmente, o local escolhido é a África).

 

Guilherme Paiva em contato com um dos elefantes de Elephant Village

Guilherme Paiva em contato com um dos elefantes de Elephant Village

– Como se deu o processo desde a escolha do projeto em que trabalharia até sentir-se plenamente no país asiático?

São diversas opções de projetos que o voluntário pode escolher. Optei por ensinar o básico de matemática e inglês para crianças. País escolhido, projeto escolhido… faltava decidir o tempo que passaria por lá. A duração mínima dos projetos é de duas semanas e a máxima é de até três meses. Com o visto de turista (o que utilizei), eu poderia ficar por até oito semanas em território indiano. Avaliei a minha situação por aqui, a grandiosidade da experiência e tomei uma decisão difícil: saí do trabalho e embarquei para ficar o máximo de tempo que eu poderia por lá. 

Vacina contra febre amarela tomada, passaporte em dia, visto impresso (o processo do visto é muito simples, sendo possível tirá-lo pela internet mesmo)… finalmente embarquei. A viagem é muito, muito longa. De Fortaleza para o Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro para Dubai, de Dubai para Nova Délhi foram os trechos de avião. Mais ou menos 36 horas. De lá, são mais seis horas de ônibus até Jaipur, o destino final.  Em Jaipur a hospedagem oferecida era em um alojamento destinado apenas para voluntários, gente do mundo todo participando dos variados projetos disponíveis na cidade. A casa era muito confortável, com internet, alimentação e transporte diário para os projetos. Além dessas facilidades, passamos por alguns workshops de introdução à cultura indiana, um dos pontos mais bacanas dessa experiência: aulas de hindi (o idioma oficial de lá), de henna (as tatuagens com belos desenhos), de vestimenta indiana (longos saris), de culinária e um jantar na casa de uma típica família local.,

Guilherme e a portuguesa Vanessa (de mãos dadas), voluntários do projeto, na companhia de alunos indianos

Guilherme e a portuguesa Vanessa (de mãos dadas), voluntários do projeto, na companhia de alunos indianos

Fui encaminhado para dar aula na Elephant Village, vila que fica a mais ou menos uma hora de distância de onde eu morava. Por lá moram os cuidadores de elefantes e suas famílias – 51 famílias, 51 elefantes. Eles residiam no coração de Jaipur antigamente, mas, com o desenvolvimento da cidade, não era mais viável aquela convivência ali. Essas famílias receberam um terreno para que pudessem continuar a vida com os seus elefantes, que são, até hoje, a única fonte de sustento para a família, gerando renda a partir de atividades com turistas, participação em eventos e festivais etc. Atualmente, esse tipo de turismo não é tão forte como antigamente e a distância do centro de Jaipur dificulta o acesso aos elefantes, fazendo o rendimento das famílias cair bastante, e com que algumas famílias vivam em condições de extrema miséria. O ensino das crianças era um dos maiores problemas da região: os pais não tinham condições de enviar os seus filhos para as escolas presentes na cidade. Foi construída uma escola ali mesmo, dentro da vila, para que as crianças pudessem ter acesso à educação. Foi lá que passei as oito semanas. Não há nada que dê mais orgulho do que acompanhar o aprendizado de uma criança, ver que eles sabem de algo porque você ensinou. Foi a experiência mais engrandecedora da minha vida. 

– Quais cuidados você recomenda a quem está indo para aquele país?

A questão principal é o respeito – e, claro, um pouco de cuidado, principalmente para as mulheres. Recebi da organização para a qual prestei serviços um “manual de sobrevivência”, com dicas acerca de costumes, vestimenta, alimentação, clima… Foi o primeiro contato que tive com a Índia. Leitura e conhecimento são as principais ferramentas para se dar bem em qualquer lugar do mundo.  

Guilherme Paiva e o indiano Puchi

– Como se dão os gastos? Qual a moeda? Como você avaliou o custo de vida?

A moeda é a rúpia indiana. O real, comparado com a rúpia, é bastante valorizado (1 real = cerca de 20 rúpias). À primeira vista, quando fazemos a conversão, nos assustamos com a quantidade de rúpias que recebemos. No dia a dia essa diferença fica ainda mais presente: tudo é muito barato. Uma corrida de tuk tuk (meio de transporte mais comum de lá – de aspecto parecido com uma mini Kombi mas que anda sobre apenas três rodas) custa, em média, 100 rúpias. Uma refeição completa: 300 rúpias. Pra quem vai de cá pra lá, o custo de vida é baixíssimo.

– Certamente sobrou um tempinho pra “turistar”. Para aqueles que querem ir até o país indiano, o que, na sua opinião, não pode deixar de ser visto?

Impossível visitar a Índia e deixar de lado o imponente Taj Mahal – uma das sete maravilhas do mundo. Localizado em Agra, a 200 km de Nova Délhi. Também visitei duas cidades que me encantaram: Udaipur, conhecida como a cidade branca (graças ao mármore clarinho presente em todos os lugares), ou ainda a “Veneza da Índia” (por conta dos diversos lagos que existem na cidade). Ali está presente o Palácio da Cidade (o maior palácio da Rajastão) e um dos maiores orgulhos para a população local: algumas cenas de “007 em Operação Tentáculo”, um dos filmes do agente James Bond, foram gravadas entre os muros de Udaipur. Além disso, estive em Pushkar, cidade pequena, mas gigante em simbolismo: é considerada a cidade mais sagrada do hinduísmo. Alguns costumes presentes no restante do país são ainda mais rigorosos por lá, como a questão da vestimenta para as mulheres (a maior parte do corpo deve ser coberta) e a proibição ferrenha de carnes e bebidas alcoólicas, por exemplo. 

 

Visita ao Monkey Temple

Visita ao Monkey Temple

– Com relação a comida, quais os principais alimentos? Comenta com a gente sobre suas impressões da culinária indiana!

Pensei que sentiria mais falta das comidas brasileiras, mas passei bem. Tínhamos uma dieta deliciosa no alojamento. A comida básica é arroz, batatas, lentilhas e alguns molhos – tudo muito apimentado (incluindo o café da manhã). O chapati não pode faltar: o pão indiano é consumido em todas as refeições. Frango e peixe não são tão comuns, mas não são raros. A maior parte da população é vegetariana.  Na companhia dos alunos Saziya e Sangam

– Na sua opinião, pegando como base a população e cultura indiana, qual a principal (ou quais as principais) diferença entre ocidente e oriente?

A principal – e a que mais me impactou – foi a presença da mulher na sociedade, desde a forma como são tratadas (não possuem voz ativa e lutam por respeito, principalmente estrangeiras) até mesmo a educação, uma vez que só recentemente conseguiram o direito (!) de estudar (!!). A questão do “casamento arranjado” ainda é uma realidade presente por lá. O amor é manifestado de forma tímida e reservada, nunca em locais públicos. Até mesmo nos filmes bollywoodianos (indústria cinematográfica da Índia) o envolvimento dos casais se dá de forma quase infantil: nada de beijos ou até mesmo abraços. Os homossexuais passam por privações ainda mais profundas e cruéis: é ilegal ser gay por lá. 

– Você recomenda a Índia?

Recomendo bastante. Ser voluntário ali foi engrandecedor, mas se a viagem for apenas de turismo, o encantamento é igualmente satisfatório. É preciso ter consciência de que não estamos no quintal das nossas casas, que somos os estranhos ali e que eles vão nos olhar, mas que vão nos respeitar, caso façamos o mesmo. É preciso saber que a Índia é um mundo completamente diferente, um mundo onde as vacas são sagradas, macacos e porcos dividem a calçada com você, o trânsito é caótico e o calor beira o insuportável (peguei mais de quarenta graus nos meus primeiros dias). Tendo consciência de tudo isso e estando de coração aberto para conhecer o novo, a experiência será bastante positiva.

 

PASSWORD RESET

LOG IN